Apontamentos para a
história de Viseu

História, ciência social. Sobre uma concepção de história

António João Cruz

A história é ainda a dos príncipes e princesas de histórias da infância. Só que doutro modo traçadas e com um outro rigor. Porém, os personagens são ainda os mesmos: são os elementos da corte, a nobreza, o alto clero e só uma vez por outra surge um elemento anónimo do povo ou este no seu conjunto. No entanto, na encenação que se faz, o povo e a paisagem verde que rodeia a cidade têm o mesmo papel, o de simples elementos decorativos. O povo não é ainda personagem da história. Preconceitos aristocráticos de quem essa história tem escrito, podemos concluir. Mas há que reconhecê-lo: também o clero ou a nobreza não têm existência como classes sociais. Preconceitos anti-marxistas de quem essa história tem escrito?

Uma coisa é certa: o contributo da historiografia viseense para a história nacional é praticamente nulo. Consulte-se o Guia do Estudante de História Medieval Portuguesa de A. H. de Oliveira Marques (2.ª ed., Lisboa, 1979), 265 páginas só de bibliografia: no capítulo da história regional e local que se encontra sobre Viseu? Apenas o Viseu de Amorim Girão, datado de 1925, e um artigo de Orlando Ribeiro na Revista Portuguesa de História. Escolha-se outro período: abra-se, do mes mo autor o Guia de História da 1.ª República Portuguesa (Lisboa, 1981), volume ainda mais grosso, com 662 páginas: que se encontra sobre Viseu? — indaguemos outra vez. Somente o livro de Amorim Girão. Um outro exemplo, de natureza diferente: um estudo de história regional: Robert Durand, Les Campagnes Portugaises entre Douro et Tage aux XIIe et XIIIe siècles, Paris, 1982: nem uma só referência bibliográfica sobre Viseu. Poderíamos multiplicar as nossas buscas; porém, dificilmente se nos depararia uma situação muito diferente desta.

A quem ou a quê atribuiremos as culpas?

Parte delas devem-se a um facto extremamente simples: na história que até hoje se tem feito é o indivíduo que lhe dá a dimensão. Nunca os grupos, Por exemplo, não deixa de ser significativo que do enorme repositório que são os 6 volumes do Viseu de Maximiano de Aragão, a que ainda hoje amiudemente se tem que recorrer embora os primeiros tenham quase um século, o 2.° esteja dividido no capítulo "desde a fundação da monarquia portuguesa ao fim do reinado de D. Fernando"e no capítulo "desde a morte de D. Fernando até ao fim do reinado de D. João II", que a maior parte do 4.º volume seja constituído por capítulos tais que a cada um corresponde um bispo e que todo o 6.º volume seja consagrado a indivíduos. Repito: são os indivíduos que têm dado a dimensão à historiografia viseense.

No entanto, se há indivíduos com um papel preponderante no processo histórico (e isso ninguém põe em causa) é porque eles reúnem em si a vontade e as aspirações dos grupos que lhes estão por trás. Eles são como a ponta do iceberg que fica acima da água. Por isso, mesmo que o nosso objectivo imediato seja o traçar a biografia de um indivíduo, a sociedade onde ele se movimenta, a sociedade que o limita e, simultaneamente, o estimula, tem que aí estar presente.

O indivíduo não se explica a ele mesmo. A sua explicação não pode em si começar e em si acabar. Tem que o ultrapassar; tem que passar pela sociedade onde vive, ainda que nela não se integre completamente. Porque a marginalização é também ela consequência da sociedade. "O homem faz-se a si próprio”, afirmou V. Gordon Childe no título de um livro, Mas são também os outros homens que o fazem. Por isso, ao mesmo tempo que é condicionado pela sociedade, o indivíduo também a cria e a modifica, ainda que por vezes as marcas que deixa sejam muito ténues, quase invisíveis. Este diálogo, posto que com intensidades diferentes, dá-se sempre, ao mesmo tempo, nos dois sentidos. Assim, para que o nosso passado possa ser convenientemente analisado, para que a nós próprios melhor nos possamos conhecer, devemos investigar não apenas um dos interlocutores mas os dois e o diálogo entre eles estabelecido. Doutro modo estamos a ignorar uma parte de nós.

 

Referência bibliográfica:

António João Cruz, «História, ciência social. Sobre uma concepção de história», A Voz das Beiras, 504, 12-7-1984, p. 6.

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