Apontamentos para a
história de Viseu

José Coelho, as comemorações e tudo

António João Cruz

Faz este ano 100 anos que nasceu José Coelho. Ou melhor: Fez. A 5 de Maio.

É claro que ninguém se lembrou do facto. Mas não faz mal. Quem em vida foi esquecido e contrariado em quase tudo o que tentou fazer pela cidade não poderia esperar outra coisa depois da morte se não o esquecimento. É assim. É sempre assim.

E no entanto, vivemos num país onde as comemorações centenárias fazem parte dos rituais folclóricos nacionais, onde as comemorações são dos gestos mais queridos às instituições que nos governam. E nesta cidade, como nas outras pequenas cidades, onde os vícios nacionais são tantas vezes ampliados.

Que aconteceu com os poderes viseenses? Porque desperdiçaram esta oportunidade de se mostrarem culturalmente empenhados, cultos, sensíveis? E esta oportunidade de se promoverem, de mostrarem trabalho feito?

Já que de nada se lembraram, aproveito, humildemente, para fazer uma sugestão. Ou várias. Afinal, o ano não acabou. E, mesmo que já tivesse passado este ano José Coelho, se calhar, poucos davam conta do engano e os que dessem, desculpavam.

A primeira sugestão, talvez aquela que José Coelho mais gostaria de ver cumprida, é a da exposição da sua colecção arqueológica. Ela foi doada pelos seus herdeiros para o futuro Museu da História da Cidade. Só que, entretanto, 6 anos se passaram e o futuro continua sempre futuro. Nos primeiros anos depois dessa cerimónia universalmente apreciada, ainda encontrei na imprensa periódica viseense algumas referências ao Museu, a passos dados, a sugestões. Mas hoje, será que todos se esqueceram já?

Essa exposição teria de ser permanente, em salas desse Museu hoje imaginário. Soluções provisórias como a da sua montagem num pavilhão acanhado da Feira, no interior do qual já vi chover, não dignifica ninguém. Mas um Museu de História da Cidade apático ou sem vida também não agrada. Um Museu, para merecer esse nome, há-de ser um corpo com vida, com sangue a correr sempre, com ideias.

Hoje, não obstante existirem algumas contribuições, não há ainda um inventário completo dos seus trabalhos. Aquilo que mais se lhe conhece — um livro e uma dezena de opúsculos — não passa de uma pequena parte daquilo que escreveu. Só artigos em jornais são, seguramente, algumas centenas — mas quem os conhece? E os inéditos?

A reunião em volume desses artigos dispersos exigiria paciente pesquisa nos jornais de Viseu, da Figueira da Foz, de Mangualde, de Lisboa, do Porto, de Coimbra, e se calhar de outros sítios. Mas seria um trabalho importante porque, como o mostram os artigos mais conhecidos, devem incluir muitas vezes informações em primeira mão sobre achados arqueológicos. Quanto mais não seja, esse trabalho valorizaria a sua colecção arqueológica, pois sobre a maior parte das peças que a constituem não há registo das condições em que foram encontradas. A consulta dos seus Cadernos de Notas Arqueológicas, em número superior à centena, a este respeito não adiantaria muito pois as notas que apresentam, nas páginas que não foram arrancadas, são muito sumárias ou muito vagas.

Uma última sugestão, que, se pudesse, José Coelho gostosamente apoiaria e incentivaria, é a da formação de um grupo de trabalho voltado para a arqueologia, a etnografia e a história viseense.

Em tempos, houve na cidade o Centro Juvenil de Arqueologia e Etnografia de Viseu. Mas os seus objectivos eram modestos, e os seus recursos, e o tempo de que dispunham os seus membros. Hoje, deveria formar-se um grupo que trabalhasse a tempo inteiro. Pelo menos, que alguns dos seus elementos trabalhassem a tempo inteiro. Haveria de se lhe dar instalações e recursos. E haveria que se lhe exigir trabalho — e o que se fizesse haveria de ser com paixão, não um outro caminho para o poder.

Estas três sugestões que aqui ficam são, no fundo, apenas uma só, para quem quer, pode e manda: pôr a funcionar o Museu de História da Cidade. Comemorar desta forma o centenário do nascimento de José Coelho seria, mais do que um ritual, algo com conteúdo. Assim, sim.

 

Referência bibliográfica:

António João Cruz, «José Coelho, as comemorações e tudo», Notícias de Viseu, 659, suplemento Por Cá!, 5-6-1987, p. 17.

Artigo em formato pdf (versão publicada)

Artigo revisto de acordo com o original dactilografado.